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terça-feira, 20 de maio de 2014

Declarando a Glória de Deus.




Estudo do Salmo 19

Por
Mário Marcos[1]

1. Tipo de Salmo
            O Salmo 19 mistura dois tipos, e isso levou muita gente a dividi-lo em dois. De fato, de 1 a 6 temos um hino de louvor, sem nenhuma introdução. Nele o céu e o firmamento, o dia e noite, em silêncio, cantam os louvores  de quem os criou. É, portanto, um hino de louvor ao Deus criador. Mas na segunda parte de 7 a 14 o estilo é sapiencial, apresentando uma reflexão sobre a lei de Javé.

2. Como está organizado
            O que dissemos até agora ajuda a ver como a Salmo 19 está organizado. Tem duas partes, de estilo diferentes: v.1-6 e v.7-14. Na primeira parte (1-6) temos um solene louvor ao Criador do universo: o céu, o firmamento, dia, noite e, sobretudo, o sol, proclamam sem palavras, os louvores de que os fez. O louvor silencioso é o mais importante, pois demonstra que as palavras não conseguem exprimir tudo o que se sente. O sol é comparado como o esposo que sai do quarto, como guerreiro e como atleta que percorre o caminho que lhe foi traçado.
            Na segunda parte (7-14) encontramos um poema sapiencial cujo tema central é a lei de Javé, também chamada de "testemunho" (7b), "preceitos" (8a), "mandamento" (8b), "temor" (9a), e "decisões". São seis palavras para dizer basicamente a mesma coisa. Ao lado de cada uma dessas palavras repete-se sempre o nome "Javé" (nesta segunda parte este nome aparece 7 vezes) e um adjetivo: "perfeita", "firme", "retos", "transparente", "puro", "verdadeiras". Depois de cada uma dessas afirmações apresenta-se um beneficiado: a alma descansa (7a), e o ignorante se instrui (7b), o coração se alegra (8a), os olhos se iluminam (8b). Tudo isso resumido com duas comparações: a lei é melhor que o ouro mais puro (ou seja, é o que há de mais precioso) e é mais doce que o mel (tido como o que há de mais doce). Em outras palavras o poema afirma que a lei é o que há de mais precioso e mais doce (10).
            Esta segunda parte pode ainda ser subdividida. Após ter apresentado o elogio da lei perfeita, o que há de mais precioso e doce, o salmista olha para si próprio, imperfeito, impuro, orgulhoso e pecador (11-13), terminando com um desejo: que as palavras do salmo, em forma de meditação, agradem a Javé, sua rocha e redentor (14).

3. Por que surgiu
            A primeira parte (1-6) do salmo apresenta uma tensão. De fato, quase todos os povos vizinhos a Israel consideravam o sol e os astros como deuses. Para o salmista, o céu e o firmamento são como uma grande tela na qual Deus deixou impressos sinais de seu amor criador. Em silêncio as criaturas falam da grandeza de quem os fez. O dia de hoje entrega ao dia de amanhã uma senha; esta noite entrega à próxima noite a mesma senha; serem anunciadores silenciosos do amor do Criador. Mesmo não usando palavras, a mensagem silenciosa deles chegará aos confins do mundo. Cada dia e cada noite trazem sempre o mesmo anuncio.
             O sol não é Deus, mas sua criatura. Naquele tempo pensava-se que ele girasse ao redor da terra. Por isso supunha-se que, de manhã, da tenda invisível que Deus fez para ele no Oriente, percorrendo como esposo, herói e atleta seu percurso, até entrar de novo em sua tenda no Ocidente. Esposo porque é sinônimo de fecundidade, herói porque ninguém escapa ao seu calor, atleta porque ninguém o pode deter.
            A segunda parte (7-14) também esconde uma tensão com as "nações". De fato, para Israel a grande e insuperável comunicação de Deus se chama "Lei". Foi com ela que deixou bem claro seu projeto e as condições para que Israel fosse seu aliado. O que Israel tem para oferecer as nações? Uma lei perfeita e justa, fruto da aliança com um Deus muito próximo: "De fato, que grande nação tem um Deus tão próximo como Javé nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? Que grande nação te estatutos e normas tão justas como toda esta e lei que lhes proponho hoje?" (Dt-4:7-8).
            Depois de falar da perfeição da lei, o salmista pensa na própria fragilidade (11-14). A lei é perfeita, ele é imperfeito. A lei é pura como ouro purificado, mas ele precisa ser purificado das faltas que cometeu sem perceber. problema maior: o orgulho ou a arrogância, que domina a pessoa, tornando-a responsável de grandes transgressões.

4. O rosto de Deus
            Duas imagens de Deus são muito fortes neste salmo: O Deus da Aliança (7-14), que entrega alei a seu povo, e o Deus Criador, reconhecido como tal por suas criaturas em todo o mundo (1-6).
            O Novo Testamento viu em Jesus o cumprimento perfeito da nova Aliança, aquele que faz ver de forma perfeita o pai (Jo-1:18 e 14:9). Sua lei é o amor (Jo-13:34). Jesus louva o Pai por ter revelado seu projeto aos pequeninos (Mt-11:25) e mandou a prender com os lírios do campo e as aves do céu o amor que o Pai tem por nós (Mt-6:25-30).

5. Aplicação pessoal
            A primeira parte do salmo nos ajuda a aprender a partir da criação, contemplar em silêncio as mensagens que vem das criaturas. Com isso aprendo que devo anunciar meu Deus e seu amor mesmo em silêncio, ou seja, minha vida deve ser um testemunho sem que seja necessário palavras para isso. É um salmo ecológico e cósmico. A segunda parte nos faz entrar em comunhão com projeto de Deus presente na Bíblia, com o mandamento do amor. Faz pensar em nossa fragilidade. É oportuno para quando queremos livrar-nos da arrogância e do orgulho.
           







[1] Mario Marcos Andrade da Silva, Bacharel em Teologia pelo (ICEC), Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. M. 10.1.509.Convalidado pela Faculdade Unida, Além de especialista em escatologia, angelologia e aconselhamento pastoral pelo IDE Missões.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Desabafo de um Profeta.



DEUS X RELIGIÃO
Por
Mario Marcos


            Desde a infância luto incessantemente com minhas dúvidas a respeito da existência ou não de Deus.  E nesta busca para responder a essa pergunta, encontrei respostas muito pessoais e cada um deve tirar a sua própria conclusão, mas neste estudo nada cientifico, outra questão me incomodou. O fato de existirem tantas religiões e diferentes credos, até mesmo divisões dentro delas, e o mundo continuar a ser tão carente de paz e amor, me fez questionar a necessidade de termos essas religiões. A conclusão que cheguei é que em verdade, elas são o câncer da sociedade, alimentando rivalidades, guerras, desunião, instigando os fiéis a lutar por mais afiliações a esta ou aquela religião; sempre com o mote da evangelização.
            Desde muito pequeno, fui e sou muito questionador e critico, e simplesmente não me satisfaz apenas ouvir e aceitar o que dizem, sempre há um por que a ser respondido, sempre haverá uma pergunta a ser feita. Assim me pergunto por que o Padre ou Pastor ou Rabino, ou qualquer outro líder espiritual pode me dizer o que fazer da minha vida, será que Deus tem ouvidos apenas para esses iluminados?  Têm-se um só Deus, porque a mensagem é diferente para Cristãos, Judeus e Muçulmanos?  A conclusão parece óbvia.  As mensagens que eles transmitem são mensagens deles e não de Deus, daí tanta divergência. Descobri que devemos buscar nossas próprias respostas, perguntar diretamente a Deus que reside em seu coração e é único, onipresente, onisciente em você irmão.  Não há necessidade de rituais, de regras, de orações decoradas, apenas diga com a voz do coração, e a resposta será imediata, personalizada e única. Não me chame de herege, mas perdi a fé.
            Perdi a fé em um Deus que só realiza “o milagre” se eu tiver fé, perdi a fé em um Deus que só ouve “os escolhidos”, perdi a fé em um Deus que a qualquer deslize meu quer me fulminar, perdi a fé em um Deus que faz acepção de pessoas, ou não pregamos: “Então vereis outra vez a diferença entre o que serve a Deus e o que não serve”? Esta diferença está no meu agir não no tanto que serei beneficiado. Desculpem-me pelo desabafo, mas ganhei uma nova fé, fé em um Deus que celebra a vida, que me ama e que independe do que eu faça para me amar.
            Em minha experiência cristã, deparei-me com uma triste constatação:nem sempre Deus é um elemento relevante, impulsionador e libertador da pessoa. Ao contrário, ao redor de sua imagem se acumulam medos, terrores e cargas morais, repressões ou reduções vitais. Não, Deus nem sempre é uma força que desato os nós, livra os embaraços, torna mais leve o peso da vida ou eleva as pessoas acima das misérias existenciais e cotidianas. Com freqüência, Deus é uma carga pesada, muito pesada. E muitos não se atrevem nem a jogar fora esse fardo.
            Quero poder colaborar para libertar as pessoas desse "Deus" opressor. Gostaria de ajudá-las a descobrirem que essas "imagens de Deus"  não são o Deus de Jesus, mas sua negação. É preciso mudar nossas imagens de Deus. Precisamos distinguir continuamente entre o que é nossa idéia e representação de Deus e o que é Deus. Freqüentemente não o fazemos nem somos ajudados a fazê-lo na igreja. Nós que falamos de Deus - e alguma vez quase todos o fazemos -, com freqüência falamos com pouco respeito ou com distância entre o que são nossas palavras e imagens de Deus e o que é o mistério de Deus. Ninguém nunca viu Deus..(Jo-1:18), mas nos comportamos como se tivéssemos tomado café com ele.
            Deveríamos recordar continuamente o aviso de Karl Barth, um dos maiores teólogos do século XX, nos deixava a respeito de seu discurso sobre Deus: não esqueçais que isso é dito por um homem de Deus. Sempre falamos, homens e mulheres, seres humanos, em linguagem humana, com os condicionamentos humanos. Com freqüência esquecemos isso.
            O pior é que algumas das afirmações e representações feitas com certa leviandade sobre Deus, dentro da igreja, se tornam verdades intocáveis. Não guardam a devida distância em relação ao mistério. Não sabem nem avisam que são homens, por mais importantes que sejam, santos e inteligentes que sejam, que falam do mistério de Deus. Na melhor das hipóteses, deveríamos colocar um aviso generalizado em todas as igrejas evangélicas, paróquias, salas de conferência, catequeses e seminários e intelectuais do mundo: "Lembrem: aqui quem fala de Deus são seres humanos, homens e mulheres". Certamente ajudaríamos, um pouco pelo menos, não confundir Deus com nosso discurso e representações sobre ele.



sexta-feira, 9 de maio de 2014

Encontro com Deus






Interpretação bíblica do Salmo 15
Mario Marcos Andrade da Silva*


Introdução

            Este trabalho pretende ser uma interpretação bíblica sobre o Salmo 15, nosso objeto de estudo. Para tais propósitos vamos utilizar ferramentas exegéticas, elas nos ajudam a conhecer o texto na sua forma e conteúdo. Abordaremos os seguintes itens: tradução do texto, data, autoria, lugar, gênero literário, forma e poesia, finalmente assunto de interpretação. Além do mais, forneceremos uma conclusão que possa ter relevância em nossa atualidade.

1.      O texto e sua tradução (Sl 15)[1]
           
1Senhor, quem será recebido em sua tenda?
Quem habita na montanha santa?
2 O homem de conduta íntegra
que prática a justiça
e cujos pensamentos são honestos.
3Ele não deixou à solta sua língua,
não fez mal aos outros.
nem ultrajou seu próximo.
4A seus olhos, o reprovado é desprezível;
mas ele honra os que temem o Senhor.
Se se prejudicar em um juramento, não se retrata;
5não emprestou seu dinheiro com usura,
nada aceitou para deitar a perder um inocente.
Quem age assim permanece inabalável.




2.      Data, autoria e lugar

            A datação do Salmo é problemática pelo seu caráter poético. No entanto, tentaremos algumas aproximações a partir das dicas fornecidas pelo mesmo texto.

            O Salmo carece de informações históricas concretas, entretanto, fala de “tenda” (v.1). A referência pode nos indicar que o texto pertence à época pré-exílica. Também ele se encontra entre a coleção dos salmos de Davi que, segundo as pesquisas podem ser localizadas em tempos da monarquia.[2]

            No que concerne a autoria do Sl 15 consideramos o seguinte: aparentemente pertence a Davi porque afirma o cabeçalho. Mas a comunidade acadêmica tem mostrado que estes títulos foram acréscimos posteriores.[3] Porém, não sabemos quem é o autor do Salmo. Ele se apresenta como uma homenagem ao rei Davi.

            Em relação ao lugar, sendo o Sl 15 um fragmento antigo de uma liturgia (v.1a), isto pode nos indicar que o salmista encontrava-se no templo, local onde se reunia a comunidade cultual de Jerusalém (Sl 24,3; 33,14; 125,2).

3.      Gênero Literário
           
            Segundo Bortolini, trata-se de uma liturgia semelhante ao Sl 24.[4] Outro estudioso do saltério, Derek Kidner, também considera que se trata de uma liturgia e o compara a outros textos veterotestamentários como Ex 19,10-15; 1 Sm 21,4-5.[5]

            Podemos dizer que se trata de um salmo litúrgico, pois sua forma e conteúdo mostram parte do acontecimento cultual no templo (v.1).




           
4.      Forma e Poesia
           
Cabeçalho: salmo davídico
Frase principal: Senhor, quem habitará no teu tabernáculo?  (v.1)
Primeira estrofe: Critérios para entrar no templo. (v.2-5a)
Frase conclusiva: Quem assim procede nunca será abalado?  (v.5b)

            Com relação à poesia do Sl 15 podemos considerar sua característica hebraica. Ela se distingue pelo seu modo de repetir o sentido de suas frases. Por exemplo: ao observar o v.1 notamos que a palavra “hospedar-se” pode funcionar como paralelo de “habitar”; enquanto que “tenda” pode ser analisada junto à expressão “monte sagrado”.

            No v.2, a expressão “anda com integridade” vai unida a “pratica da justiça”. Igualmente “falar a verdade” se relaciona antonimamente com “deixar a língua correr”.  “Lesa seu irmão” tem conexão com “insultar ao próximo” (v.3). E “desprezar o ímpio” se mostra como ação contraria a “honrar os que temem a Javé” (v.4a). A ação de “jurar com dano próprio” devem ser estudados, especialmente, com a frase “não emprestar dinheiro com usura” e “nem aceirar suborno” (v.4b-5a). Depois observamos que o texto termina com uma frase conclusiva “quem age deste modo jamais vacilará” (v.5b). Ela conecta com o sentido da primeira frase do Salmo (v.1), deixando o texto como uma unidade literária coesa.  

5.      Assunto de interpretação
           
            O Salmo mostra um padrão de perguntas e respostas. No seu contexto vital existe uma controvérsia em torno da ética para habitar ou entrar no santuário. A teologia do texto se encaixa dentro da tradição profética (Isaías, Miquéias e Amós) que denuncia a exploração justificada pela religião.

            Vemos no primeiro versículo que o salmista faz um questionamento como introdução que dará o tom para o desenvolvimento do texto. É importante destacar a imagem do monte santo, porque segundo a tradição do êxodo (Ex 3.1; 19.2; 24.12), era o lugar de encontro com Deus. Porém, quando o salmista se empenha em indagar quem teria condições para entrar no templo, procura pôr os critérios para quem pretenda se encontrar com Deus.

            No v.2 o salmista começa a indicar esses critérios destacando a prática da justiça, que segundo Isaías 33.15, podemos entender como falar com retidão, ou seja, falar a verdade, que indica um verdadeiro interesse pelo próximo sem buscar benefícios para si; não tirar proveito de pessoas que estão em situação desfavorável; respeitar o direito do próximo e não ter prazer na violência.

            A partir do v.2 se constata que, para a teologia do salmista, a ética cotidiana não estava separada das celebrações litúrgicas. Tudo indica que o espaço sagrado exigia níveis profundos de transformação pessoal.

O Salmo destaca o adequado uso da língua (v.2b-3). Segundo outros textos contemporâneos, a língua podia ser comparada com uma “espada afiada” (Sl 52,4), pelo seu poder de ferir e matar. E, também, como o mesmo texto indica, a língua parecia ser o médio eficaz para “lesar o irmão”, “insultar” (v.3), planejar usura (v.5a), “subornar” (v.5b).  O mau uso da língua procura prejudicar o outro (Pv 6,19), e revela, segundo o conteúdo do texto, dois projetos de vida diferentes: o dos ímpios (v.4a) e o dos que temem a Javé (v.4b).

Logicamente que o Sl 15 apresenta a teologia da retribuição: separação de justos e pecadores e a visão de um Deus que acolhe os bons e despreza os ruins. Mas, o nosso interesse vai se centrar no aspecto de que não se pode servir a Deus sem servir aos irmãos (v.2-5).

            O salmista encerra respondendo a pergunta inicial (v.1) com relação aos que podem entrar ou habitar no monte santo: os v.2-5 deram a resposta. Os que praticam estes preceitos, também localizados em outras referencias bíblicas, (Ex 22.25, Lv 25.35-37; Dt 15.2) estão em sintonia com o desejo de Deus.

Algumas questões para refletir:

            Que lugar ocupa Deus na minha vida? Que lugar ocupam meus irmãos? Onde termina um, onde começa o outro? Existe um limite realmente? Nossa ética está em harmonia com os “sonhos” de Deus? Como tornar a pratica da justiça eficaz em nossas comunidades?

            Respondendo estas perguntas, também saberemos como é nosso encontro com Deus.






*O autor é bacharelando em teologia pelo (ICEC) Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, além de especialista em escatologia e angelologia pelo Ide Missões.
[1] Tradução do texto extraído da Bíblia Tradução Ecumênica, São Paulo, Loyola, 1994.

[2] Nome do autor, Título do livro, Lugar, Editora, Ano, p.15.
[3] José Bortolini, Conhecer e rezar os salmos, São Paulo, Paulus, 2006, p.11-12.
[4] José Bortolini, p.70.
[5] Derek Kidner, Introdução e comentário dos salmos, São Paulo, Vida Nova, 1992, p.97.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Tetelestai: Consumado está!

TETELESTAI
(Está consumado)
(Jo-19:30)
Por
Mario Marcos[1]












            A história registra as ultimas palavras de grandes homens que morreram crucificados:
David Hume, o ateu, gritou: “Estou em chamas”, seu desespero foi uma cena terrível.
Hobbes, um filósofo inglês: “Estou diante de um terrível salto nas trevas”.
Nietzsche, filósofo alemão: “Se realmente existe um Deus, sou o mais miserável dos homens”.
Jesus Cristo, O Salvador: “Está consumado”.
            
            Esta foi a sexta palavra que Jesus disse na cruz, quando comparamos aos registros dos evangelhos, descobrimos que ele gritou em alta voz: “Está consumado”. Esta declaração não foi o gemido de um homem derrotado, mas o grito triunfante da vitória do filho de Deus, nosso salvador. Aos 33 anos a maioria das pessoas costuma afirmar: “é o começo”, mas nessa mesma idade jesus dizia “Está consumado” ele não disse “Estou acabado”. Não se tratava de um lamento de uma vítma vencida pelas circunstâncias, mas um grito de um vencedor derrotando todos os seus adversários. Na língua grega o significado desta palavra é: “Está consumado, permanece consumado, e estará sempre consumado.



Tetelestai: um termo comum
            Embora essa palavra não seja conhecida de muitas pessoas nos dias atuais, ela era comum quando Jesus ministrava na terra. Os arqueólogos descobriram diversos documentos gregos antigos que tinham esta expressão. Quando o Espírito Santo inspirou os escritores do N.T, guiou-os para usarem uma lingugem comum do povo dos dias de Jesus, e está expressão: “Está consumado” fazia parte da vida diária das pessoas. Vamos explorar estas palavras que eram usadas por alguns indivíduos daquela época e assim entender melhor o que significa as palavras de Jesus na cruz.
            Servos: Os servos e escravos usavam esta palavra sempre que terminavam um trabalho e levavam o fato  ao conhecimento de seus senhores; o servo dizia: “tetelestai”, terminei a tarefa que me destes para fazer. Isto significa que o serviço fora feito como o senhor determinara, e na hora que estabelecera.
            Jesus Cristo é o servo santo de Deus, (Fl-2:5-11)

           Quando um artista completava uma pintura ou um escritor terminava um manuscrito, podia dizer: “Está consumado!” Um servo usava esta expressão para relatar a seu Senhor “(consumei) a obra que me confiaste para fazer” (Jo 17.4). Também era usado pelo sacerdote depois de examinar um animal para o sacrifício e de não encontrar nele qualquer defeito. Mas talvez o uso mais importante de “está consumado” seja comercial, quando mercadores diziam: “A dívida está paga!”
            Ao se entregar na cruz, Jesus cumpriu inteiramente os requisitos justos de uma lei santa; pagou toda a dívida. O sangue derramado nos sacrifícios do Antigo Testamento cobria, mas não poderia remover o pecado, somente o sangue de Jesus pôde fazer isto de uma vez por todas (Jo 1.29; Hb 9.24-28).

            Certa vez, um evangelista chamado Alexander Wooten foi abordado por um rapaz irreverente que lhe perguntou: “O que devo fazer para ser salvo?” “É tarde demais!”, respondeu Wooten. E continuou o que estava fazendo. O jovem assustou-se. “Quer dizer que é tarde demais para eu ser salvo?”, perguntou. “Não há nada que eu possa fazer?” “Tarde demais!”, disse Wooten. “Já foi tudo feito! Você só precisa crer.”
             Que Deus continue nos abençoando.






[1] O autor é bacharel em teologia pelo (ICEC) Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, além de especialista em escatologia e angelologia pelo Ide Missões

domingo, 16 de junho de 2013

Deus O Poeta da Vida.



Teologia é poesia: a linguagem poética da fé

                               
 Introdução
Na última aula de Teologia Bíblica desse semestre tivemos a oportunidade de analisar sobre a linguagem poética da espiritualidade. Nesse trabalho pretendo desenvolver um pouco mais a respeito desse conceito, trazendo também a ideia de que a própria Teologia se constitui numa linguagem poética.

Desenvolvimento
O fato de que o objeto de estudo da teologia: Deus, ser na verdade impossível de ser analisado e experimentado em laboratório nos conduz a uma conclusão inescapável: a de que a Teologia é linguagem poética. Não estou com isto dizendo que Teologia não seja uma ciência, afinal, possui metodologia e regras do método científico. Entretanto, por se tratar do estudo de nada mais e nada menos do que o “Grande Mistério” e as relações dos homens e mulheres com ele, nossa linguagem na Teologia é representativa.
Quando falamos de Deus, já falamos em linguagem humana, com elementos próprios de nossa experiência humana. Ao nos referirmos a Jesus, nos referimos ao “símbolo” de Deus para o cristão. Ao falarmos do Espírito Santo, nos referimos àquela “força”, ainda que o tenhamos como pessoa da Trindade, que nos move ao próximo e aos valores de Cristo. Ao nos referirmos aos valores de Cristo, falamos do amor ao próximo e da encarnação, e tudo baseado nas representações da vida de Cristo, que nem sabemos se foi fato ou apenas linguagem religiosa dos escritores dos evangelhos. Portanto, toda a nossa linguagem teológica é representativa e poética, porque ao final das contas, tudo o que de lá tiramos como divino é para nos tornarmos mais humanos.
Não sou o primeiro certamente a defender a essa ideia  Rubem Alves, teólogo brasileiro, já fez muita referência a essa ideia da Teologia como poesia em seus livros. Em um de seus livros escreveu “Ninguém jamais viu Deus. Dele, o que conhecemos são apenas as palavras que falamos. E palavras são como bolsos – espaços vazios que usamos para guardar coisas”[1].

Conclusão
O fato de que a Teologia seja linguagem poética não deve nos tirar a fé. Ao contrário. Nos faz lembrar que a fé está para além da razão. A fé é algo para ser experimentado, encarnado. E nesse sentido a linguagem poética é muito mais rica para descrever do que os simples conceitos, pois o dogma congela, esteriliza, engessa ou seja, é morto. A poesia é viva, sempre passível de novas interpretações dependendo de quem a leia. Se Teologia é poesia, então ela é vida e, portanto tem tudo a ver com encarnação, com experiência, com vida, com amor, com Deus.
Infelizmente sabemos que há teologias que não são poesias porque se transformaram em dogmas imutáveis. Penso que essa teologia nada tem a ver com Deus, tem a ver com homens que desejam apenas a morte. “Escolhei, pois, a vida”.




[1] ALVES, R. O Deus que conheço. São Paulo: Verus, 2010, p.12.

Sem amor eu nada seria.



Análise Exegética de 1 Coríntios 13
Texto
“1Mesmo que eu fale em línguas, a dos e a dos anjos, se me falta o amor, sou um metal que ressoa, um címbalo retumbante.
2Mesmo que tenha o dom da profecia, o saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento, mesmo que tenha a fé mais total, a que transporta montanhas, se me falta o amor, nada sou.
3Mesmo que distribua todos os meus bens aos famintos, mesmo que entregue o meu corpo às chamas, se me falta o amor, nada lucro com isso.
4O amor tem paciência, o amor é serviçal, não é ciumento, não se pavoneia, não se incha de orgulho, 5nada faz de inconveniente, não procura o próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor, 6não se regozija com a injustiça, mas encontra a sua alegria na verdade.
7Ele tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8O amor nunca desaparece.
As profecias? Serão abolidas.
As línguas? Acabar-se-ão.
O conhecimento? Será abolido.
9Pois o nosso conhecimento é limitado e limitada é a nossa profecia.
10Mas quando vier a perfeição, o que é limitado será abolido.
11Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei homem, pus cobro ao que era próprio da criança.
12Agora, vemos em espelho e de modo confuso; mas então, será face a face. Agora o meu conhecimento é limitado; então, conhecerei como sou conhecido. 13Agora, portanto, permanecem três coisas, a fé, a esperança e o amor, mas o amor é o maior.”[1]

Introdução

Esta perícope, na verdade, se inicia no v. 31 parte b “E além disso, eu vou indicar-vos um caminho infinitamente superior”. Como continuação do texto anterior em que Paulo trabalha a questão dos diversos dons dos membros do corpo de Cristo.
Tem sido chamada de “Hino ao amor”. Uma pergunta que fazemos é sobre o gênero literário: trata-se totalmente de um poema? Há um refrão: “se me falta amor...” que se repete nos  v. 1 ao v.3. Esses três versículos nos remetem mais a ideia de um poema. Portanto eu sugiro que possa existir na verdade aqui mais de uma perícope ou talvez teríamos subperícopes. Sendo a primeira do v.1 ao v.3. Veja a estrutura sugerida para essa primeira:
Subperícope 1 – “Poema ao amor” – v.1-3
1ª Estrofe (v.1)
Mesmo que eu fale em línguas, a dos homens e dos anjos
Se me falta o amor...
Sou um metal que ressoa, um címbalo retumbante.

2ª Estrofe (v.2)
Mesmo que tenha o dom da profecia, o saber de todos os mistérios e de todo o
conhecimento
Mesmo que tenha a fé mais total, a que transporta montanhas
Se me falta o amor...
Nada sou.

3ª Estrofe (v.3)
Mesmo que distribua todos os meus bens aos famintos,
mesmo que entregue o meu corpo às chamas,
Se me falta o amor...
Nada lucro com isso.

A estrutura das estrofes é basicamente assim:

1) Primeiro e às vezes o segundo verso: hipótese de dom ou trabalho efetuado
2) O refrão: “Se me falta o amor”
3) Conclusão: inutilidade, nulidade.


As outras subperícopes poderiam ser dividas da seguinte forma:
           
4 – 7: O que é o amor
           
8 – 13: A permanência do amor diante da transitoriedade dos demais dons




Subperícope 2 – “O que é o amor?” – v.4-7

Esta segunda perícope  ou subperícope, não tem tanto um aspecto de poema. Primeiro, pela falta do refrão e segundo, por ter características retóricas.
Dos versículos 4-6a, Paulo faz afirmações e negações do que é do que não é o amor ágape (no grego). Essas afirmações não são meramente conceituais, mas se baseiam em experiências e ações que expressam o verdadeiro amor.
Dos versículos 6b-7, Paulo usa a retórica para contrapor as negações sobre o amor nos versículos anteriores.

Subperícope 3 – “A permanência do amor diante da transitoriedade dos demais dons” – v.8-13

Ainda usando de retórica, Paulo contrapõe a transitoriedade dos demais dons com relação ao amor que é permanente.
v.8 – Os três dons mencionados no capítulo anterior: profecias, línguas e conhecimento. Tudo será abolido, acabará. (v.9-10).
v.11 – A metáfora da criança que ao se tornar adulto deixa as coisas de criança. Temporalidade. Transitoriedade.
v.12 – A metáfora do espelho. Mostra limite, imperfeição
v.13 – A conclusão do que permanece: o amor.

Conclusão:

Essa perícope pode ser divida em três subunidades ou subperícopes, como queiram chamar. Sendo a primeira de estrutura poética e as duas últimas de função retórica.
Existem discussões sobre o que é essa perfeição que viria (v.10). Em minha opinião, fica muito claro que o perfeito é o próprio amor, o ágape. E que não tem necessariamente um aspecto escatológico e sim como algo que sempre decorre quando o amor acontece. Havendo amor, desaparece ou não se torna mais necessário os demais dons.




[1] Tradução Ecumênica da Bíblia. Loyola, São Paulo: 1994.