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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Teologia da Libertação





TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

            A teologia da libertação é uma reflexão teológica que nasceu da influência de três frentes de pensamento: O evangelho social das igrejas norte-americanas, trazido ao Brasil pelo missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull; a teologia da esperança, do teólogo reformado Jürgem Moltmann; e a teologia política que tinha como seus grandes expoentes o teólogo católico Johann Baptist Metz, na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox, nos EUA. Assim, para que você compreenda melhor, vai uma série de eventos que precederam o nascimento da teologia da libertação:- 1952: O missionário presbiteriano Richard Shaull chega ao Brasil trazendo o evangelho social e cria uma estreita relação com os pastores presbiterianos Rubem Alves e Jaime Wright; - 1964: O teólogo reformado Jürgen Moltmann publica sua obra Teologia da Esperança; - 1965: O teólogo batista Harvey Cox publica A Cidade Secular; - 1967: O teólogo católico Johann Baptist Metz pronuncia a conferência sobre a Teologia do Mundo; O marco do nascedouro da teologia da libertação está na publicação da obra  teologia  da esperança Humana, de Rubem Alves, que tinha o título de Teologia da Libertação, criticando a teologia metafísica de uma forma geral e propondo o nascimento de novas comunidades de cristãos animados por uma visão e por uma paixão pela libertação humana e cuja linguagem teológica se tornava histórica.
            A primeira participação católica no lançamento da teologia da libertação foi à publicação da Teologia da Revolução, em 1970, pelo teólogo belga radicado no Brasil Joseph Comblin. Somente em 1972, Leonardo Bof surge no cenário teológico com a publicação Jesus Cristo Libertador. Como Rubem Alves estava asilado  nos EUA neste período, Bof passou a ser o mais conhecido representante desta corrente teológica que vivia no Brasil, devido à proteção recebida pela ordem dos franciscanos, à qual ele pertencia.
            A teologia da libertação é uma escola importante e controversa na teologia da igreja católica desenvolvida depois do concílio vaticano II. Ela dá grande ênfase à situação social humana. O teólogo peruano Gustavo Gutierrez é um dos mais influentes proponentes desse movimento. Também o teólogo americano Cornell West e o brasileiro Leonardo Bof se destacam. O movimento foi forte durante as décadas de 60 e 70, quando se espalhou de forma especial na América Latina e entre os franciscanos, sendo uma das orientações para o movimento das comunidades eclesiais de base (CEBs). Sua influência tem diminuído desde que partes importantes de seu ensinamento fora rejeitados pelo vaticano, e a partir do crescimento do movimento da renovação carismática. Integrantes do movimento afirmam que este sempre foi baseado em idéias de amor e libertação de todas as formas de opressão (especialmente opressão econômica). Também afirmam que ele teria uma forte base nas escrituras sacras. Por outro lado, alguns aspectos da teologia da libertação têm sido fortemente criticados pela santa fé e por várias igrejas protestantes (embora a igreja luterana a tenha adotado), como por exemplo, o fato dos adeptos da teologia da libertação assumir o papel político da igreja e pela utilização do marxismo como base ideológica do movimento.
            O papa João Paulo II solicitou à congregação para a doutrina da fé dois estudos sobre a teologia da libertação. Eles foram colocados em documentos em 1984 e 1986 com os nomes de Libertatis Nuntius e Libertatis Conscientia. Neles se considera, em resumo, que, apesar da importância do compromisso radical que a igreja católica assume com os pobres, a disposição da teologia da libertação em aceitar postulados de origem marxista  ou de outras ideologias políticas não eram compatíveis com a doutrina, especialmente ao afirmar que “só seria possível alcançar a redenção cristã com um compromisso político”. Alguns afirmam que o que ocorreu não foi uma crítica ou repressão ao movimento em si, mas sim correção de certos exageros de alguns de seus representantes (como sacerdotes mais tendentes à política, ou mesmo ao gnosticismo).
            Outros afirmam que houve uma deliberada sanção à igreja latino americana na repressão à sua forma mais pungente de ação e critica social. Com a ascensão do pensamento tradicionalista na igreja romana, a teologia da libertação foi paulatinamente sendo excluída da igreja oficial, mantendo-se ainda viva nos movimentos sociais existentes dentro da igreja, especialmente aqueles comprometidos com uma análise crítica da realidade. Por outro lado, a força de suas idéias difundiu-se pelo clero e grande parte dos sacerdotes latino-americanos hoje está ligada em maior ou menor grau aos ideais da libertação dessa escola teológica. A teologia da libertação é analisada de três formas, os três P’s: Profissional, pelos teólogos; pastoral, nas igrejas e CEBs (comunidades eclesiais de Base); Popular, pelo povo oprimido no dia a dia.      

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A DIGNIDADE HUMANA E A GLÓRIA DE DEUS







Texto escrito pelo meu professor de teologia bíblica Eliel Batista, no final colocarei o link do seu blog. Grande cara e dono de um coração maior ainda.

A DIGNIDADE HUMANA E A GLÓRIA DE DEUS


1- Justificativa

Algumas pessoas me abordaram com perguntas sobre uma "tal teologia moderna" que, ou "estaria ameaçando a igreja" ou eu "adotara" e, estaria me desviando.
Percebo em quase a totalidade das vezes, pouca informação ou uma confiança maior no invariavelmente distorcido "ouvi dizer".
O mais chocante para mim é, depois de um bom papo e os devidos esclarecimentos sobre os fatos, ver a expressão facial dos inquisidores revelando decepção ou desconfiança ao constatarem que eu não me desviei.
É verdade que há aqueles que se revoltam ao saberem que deram crédito a boatos impensados e porque não, até mesmo maldosos.

Considero necessário colocar que sou apaixonado pela Bíblia, amo a Cristo e desejo mais que tudo que Ele seja conhecido por todos.
Dado o "frenesi" é importante abordar alguns aspectos daquilo que tem gerado inúmeros rótulos, tais como, "teologia humanista", "teologia antropocêntrica" ou no mais popular uma teologia para agradar homens.

Comecemos encarando o fato do dogmatismo doutrinário servir como um instrumento de dominação.
Qualquer poder para se manter sufoca as propostas que o ameace e para isto os rótulos são excelentes ferramentas.
Para levar a cabo a dominação, quase sempre aquilo que foi rotulado não necessariamente corresponde ao rótulo dado.

O devoto ao se abrir para além do dogmatismo, corre um sério risco de compreender que dentre as coisas que o aprisionam, a mais apertada algema é o arcabouço doutrinário homologado como única verdade para que ele seja reconhecido pelo dogmáticos como um cristão.

Às vezes, uma expressão que em si mesma não é boa nem má, passa a ser pejorativamente acusada de maléfica; rotulada de antideus.
Na verdade, se o poder instituído apresentar algo como muito maléfico, tem grandes chances deste mal ser altamente destruidor, não da fé, mas do sistema que homologa o poder.
O fiel se vendo livre do dogmatismo doutrinário não mais sustentará o poder, que ruirá.
Sim, a verdade liberta.
Quando o fiel tem acesso à ela liberta-se de todo o poder dominante e este é o veneno. Não contra o crente, mas contra os dominadores.

Pensar não é pecado. Buscar e conhecer a verdade é libertador. Conhecer novas coisas só é danoso para a ignorância. Aqueles que se sentem donos da verdade consideram pensar como um pecado, quando aquilo que dominam é ameaçado.

2- Interpretações.

Uma mãe cuidadosa e dedicada, segura o bebê até que durma. Coloca-o delicadamente no berço, apaga a luz, fecha a porta silenciosamente e se retira do quarto satisfeita, pois o filho está alimentado, protegido e descansando.
O bebê por sua vez acorda, abre os olhos e constata estar sozinho, abandonado no escuro, sujo e com fome.
Talvez pensasse: que mãe é esta que engana um filho tão frágil? É só dormir e ela me abandona por completo, eu tão dependente e indefeso?

Se ao interpretar os fatos da vida ocorrem variáveis, não pensemos que teologizar esteja isento de uma pluralidade de percepções.
Sujeito e objeto de conhecimento se imbricam numa interação em que, o sujeito tem influência naquilo que deverá ser conhecido dando nuanças diversificadas à conclusão.

3- A questão em si.

A Teologia, como a maioria das pessoas conhece, parte do pressuposto de que o
ser humano tem garantido sob seus pés a danação eterna. A partir desta base se
fala sobre o amor de Deus.
A saga humana tem sua centralidade e o desenrolar de
sua história a partir da Queda - do pecado.

A partir da teoria da Queda, isto mesmo, TEORIA (queda não está na Bíblia), assimilamos uma ideia de que desde então não prestamos.
Isto porque um sujeito chamado Adão, em idos tempos, comeu um fruto proibido e ocasionou uma "mudança" no conceito que Deus tinha a nosso respeito.
Deus teria nos criado e viu que era bom, mas com a desobediência teria se arrependido ou dependendo da linha teológica, a partir daquele ato não teria mais nenhum compromisso em defender o humano, e teria por justiça o dever de destrui-lo.
A partir deste evento, Deus, a priori, nos recusa ou tem sérias resistências conosco.

Nos esquecemos, no entanto, que dizer "não prestamos", não é uma afirmação de Deus a nosso respeito, mas trata-se de uma teoria que dizemos Deus ter a respeito de nós a partir de uma interpretação.

Esta teoria teria sido uma interpretação a partir de qual ângulo?
Da mãe que põe o bebê para dormir, ou do bebê que acorda no meio da noite?

Há apenas uma maneira de ler a Bíblia?
Esta que parte do pensamento de Deus não nos querer bem, como um fato verdadeiro?
Ou como alguns entendem: "O texto comprova que Deus não precisa nos querer bem e tem o direito de nos desejar o mal".

Para Deus ser bom, ou sua bondade ser demonstrada é necessário que o homem seja mal?
Jesus não oferece a possibilidade de entender o propósito de Deus de outra forma?

Fomos tão doutrinados com esta teoria que ela se tornou uma verdade pétrea.

O racionalismo deu ao conhecimento racional o status de verdade absoluta e com tal intensidade que ele já foi tratado como uma pedra basilar - a pedra do conhecimento.
Se alguém quisesse construir um edifício verdadeiro, deveria fazê-lo sobre o conhecimento racional. Assimilado pela teologia, ao se descobrir um raciocínio lógico na Bíblia, ele deveria, e ainda deve para muitos, permanecer inalterável.

Para o cristão, se há uma pedra na qual deve-se construir uma casa, esta não é o racionalismo. Está mais para uma pessoa, Jesus - "a pedra que os construtores rejeitaram".

Um teólogo na antiguidade teria "descoberto" que a razão do sofrimento humano teria sido sua desobediência a Deus e a consequente mudança da percepção divina sobre o ser humano.
Se para ser uma verdade verdadeira precisa ser um "pedra imutável", não se pode mudar ou pensar diferente.

Estamos tão envolvidos e amalgamados com esta teoria, que qualquer Teologia que ouse contradizê-la afirmando o ser humano como querido, amado e bem visto por Deus, isto desde sempre, é chamada de "modernismo", "desvio da verdade cristã", "humanismo" com um sentido pejorativo que se oporia à glória de Deus, e também como uma "teologia de glorificação ou deificação do homem".
"O homem querendo ser Deus", afirmam.

É como se ao defender a dignidade humana tirasse a glória e dignidade de Deus.
Mas afinal, o homem não é a glória de Deus como nos informou Paulo?

Concluo então, com pelo menos dois motivos do porque se recusa qualquer interpretação diferente da "oficial":

O dogmatismo mantém poder.
O critério de verdade que sustenta o dogmatismo.


Há quem revise a teologia e parta do pressuposto de que Deus ama o homem a
ponto de criá-lo e garante este amor tornando-se igual a ele.
A saga humana tem
sua centralidade em Cristo e a história se desenrola por meio do amor de Deus.

Nenhum cristão deveria pensar que a glória de Deus é rejeitar o humano ou que o ser humano ser querido por Deus é antiDeus.
A bandeira mais levantada por todo e qualquer evangelista sempre foi João 3:16 "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho...".

Ser um humano é tão precioso que a Teologia cristã afirma que Deus se fez homem.
Ele deixou sua própria glória para assumir sua identidade divina como humano. Não há nenhum outro meio de conhecer Deus que não seja na forma humana.
Mesmo que afirmar isto seja uma "deificação do homem", uma "antropocentrização" ou um "humanismo", o cristão deve defender, aceitar e admitir a ideia porque se é o que está revelado em Cristo faz parte da fé cristã.

Teologia deve glorificar a Deus.

Isto é verdade, mas devemos nos lembrar que Deus não é glorificado como normalmente entendemos como se glorifica alguém, como por exemplo colocando-a no pódium, ou sentando-a em um trono para ser ovacionado.
Na tentativa de glorificar a Deus, por vezes a Teologia o prende num "soberanismo", e cria resistência à possibilidade de Deus ser glorificado como o servo que lava os pés de seus amigos, ou o maldito pendurado numa cruz?
Jesus disse que seria glorificado no amor e não no poder.
Jesus disse que "não aceitava a glória que vinha dos homens" e noutra feita disse que "aquilo que é exaltado entre os homens é abominação para Deus" e ainda que "no Reino dele o exaltado é o menor".

Entendamos que no Reino de Deus ser exaltado não significa ser transformado no maior, mas permanecer menor, pois no momento em que o menor se transformar no maior deixa de ser o exaltado do Reino.
A glória, segundo Jesus, não está no maior, no mais forte, no aplaudido.

Deus é glorificado na sua vontade, e sua vontade eterna não foi ficar sentado no trono e rodeado de brados, mas inserido na humanidade, que Paulo nos diz ter sido o "eterno propósito de Deus estabelecido em Cristo".
Aferimos, portanto, Deus glorificado no fato de ser reconhecido humanamente - "o Pai é glorificado no Filho".
Manter Deus no trono é recusar Deus entre nós como fizeram aqueles que promoveram sua crucificação. Eles consideraram impossível Deus ser parecido com Jesus.
Ele está para sempre conosco.

A Teologia que reconhece a dignidade humana, não é antideus, é cristã, exceto se ser cristão significar ser antideus como disseram os fariseus nos dias de Jesus.

Espero que na mente dos cristãos os rótulos não ganhem o status definidor de verdade ou mentira. De sã doutrina ou heresia. Antes, independente do rótulo ser bonito ou feio, oficial ou proscrito, se for uma verdade do evangelho de Cristo, seja acolhido por cada cristão.

3- E eu neste meio?

Já deve ter dado para perceber minhas tendências!
Confesso, não sou adepto do dogmatismo, preso às repetições de conteúdos teológicos elaborados em um mundo diferente deste que vivo. Não acredito em conhecimento pétreo, imutável e definitivo.
Esta posição demonstra que minha teologia tende a ser tachada pelos mais conservadores às vezes de liberal, outras de moderna.

Reconheço um conservador também como cristão, mas o fato de não ser conservador, não me exclui do cristianismo e isto eu gostaria, e como gostaria, que fosse respeitado.
Mas sei que é difícil, até porque se um conservador reconhece um não-conservador como cristão estaria abrindo mão de seu conservadorismo.

Mas afirmo que minha teologia não é moderna.
Pelo contrário, critico muito às elaborações modernas da Teologia, principalmente quando as confronto com as antigas e com a realidade do mundo atual.


Admito que minha teologia tenta se exprimir de forma mais atual, mas sei que, ainda assim, nem tanto.

Eliel Batista
Vaja mais em: http://www.elielbatista.com/

sábado, 30 de março de 2013

A conversão de Saulo




Por
Mario Marcos

INTRODUÇÃO
            Queremos através deste trabalho, apresentar uma exegese de (At-9:1-31), onde o autor conta a notável história da conversão de Saulo de Tarso, que se tornou o apóstolo dos gentios. Este é um incidente importante na história Lucana, pois irá contar como Saulo, que será o herói, da segunda parte dos Atos, tem um encontro com Cristo ressuscitado e passa de perseguidor a perseguido. Antes que os cristãos levem o testemunho aos gentios, Lucas deve incorporar este herói à comunidade cristã. Este trabalho pretende ser uma interpretação bíblica sobre a conversão de Saulo, para tais propósitos irei utilizar ferramentas exegéticas, elas nos ajudam a conhecer o texto na sua forma e conteúdo. Abordarei os seguintes itens: tradução do texto, data, lugar, autoria, gênero literário, forma, estrutura interna, e finalmente assunto de interpretação. Além do mais fornecerei uma conclusão que possa ter relevância em nossa atualidade.

PERÍCOPE
            Esta perícope fica delimitada a partir de (At-9:1-31), pois a perícope anterior que nos conta a história de Filipe e o eunuco etíope, termina em (8:40), e na posterior nos fala de Pedro viajando por toda parte e indo visitar os santos que viviam em Lida (9:32).     A perícope da conversão de Saulo divide-se em três partes, a saber: sua vocação, sua pregação em Damasco e sua chegada em Jerusalém. Neste trabalho não iremos analisar a perícope como um todo, pois temos um alvo específico, ficaremos focados apenas na conversão de Saulo e tentar fazer uma ponte com (2 Co-12:1-10) buscando elementos que liguem estes dois relatos, e fazer uma análise comparativa sobre os três relatos da conversão de Saulo, (9:1-31) (22:4-21) e (26:9-18).
[1]TEXTO
               1 Saulo, que respirava contínuas ameaças e morticínios contra os discípulos do Senhor, foi 2 pedir ao sumo sacerdote cartas para as sinagogas de Damasco.  Se encontrasse lá adeptos do caminho, homens ou mulheres, ele os traria presos a Jerusalém.
               3 Seguindo o seu caminho, ele se aproximava de Damasco, quando, de repente, uma luz vinda do céu o envolveu com o seu brilho. 4 Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saul, Saul, por que me persegues?” 5 “Quem és tu, Senhor?” perguntou ele. “Eu sou Jesus, è a mim que persegues. 6 Mas levanta-te, entra na cidade e ser-te-á dito o que deves fazer”. 7 Os seus companheiros de viagem tinham parado, mudos de espanto: eles ouviram a voz, mas não viram ninguém. 8 Saulo se levantou do chão, mas embora tivesse os olhos abertos, não enxergava mais nada, e foi conduzindo-o pela mão que ao seus companheiros o fizeram entrar em Damasco, 9onde permaneceu privado da vista durante três dias, sem comer, nem beber.
               10 Havia em Damasco, um discípulo chamado Ananias; o Senhor o chamou em uma visão: “Ananias!” “Eis-me aqui, Senhor”, respondeu ele. 11 O Senhor acrescentou: “Vai à rua chamada rua Direitae, na casa de Judas, perguntarás por alguém chamado Saulo de Tarso;  ele está lá rezando, 12 e acaba de ver um homem chamado Ananias entrar e lhe impor as mãos para restituir-lhe  a vista”.
13 Ananias respondeu: “Senhor, eu ouvi muita gente falar deste homem, e contar todo o mal que ele fez aos teus santos em Jerusalém. 14 e, aqui, ele dispõe de plenos poderes recebidos dos sumos sacerdotes para aprisionar todos os que invocam o teu nome”. 15 Mas o Senhor lhe disse: “Vai, pois este homem é um instrumento por mim escolhido para dar testemunho do meu Nome perante as nações pagãs, os reis e os israelitas. 16 Eu mesmo lhe mostrarei quanto precisará sofrer por meu Nome”. 17 Ananias partiu, entrou na casa, impôs-lhe as mãos e disse: “Saul meu irmão, é o Senhor que me envia – este Jesus que te apareceu no caminho que seguias – afim de recuperes a vista e fiques repleto de Espírito Santo”. 18 Imediatamente, uma espécie de membranas lhe caíram dos olhos, ele recuperou a vista, e recebeu então  o batismo 19 e, depois de alimentar-se recuperou as forças. Ele passou uns dias com os discípulos de Damasco, 20 e não tardou em proclamar nas sinagogas que Jesus é o filho de Deus. 21 Todos os que o ouviam ficavam estupefatos e diziam: “Não é ele que, em Jerusalém, perseguia os que invocavam este nome? E não viera expressamente para os levar presos aos sumos sacerdotes?” 22 Mas Saulo manifestava-se cada vez mais claramente, e confundia os judeus que habitavam ES Damasco, provando que Jesus era de fato o Messias.
               23 Um tempo bastante longo decorrera quando esses judeus se coligaram para fazê-lo perecer. 24 Saulo então teve conhecimento de sua trama. Eles chegavam a guardar as portas da cidade, dia e noite, para poder matá-lo. 25 Mas, uma noite, os seus discípulos tomaram-no e o desceram ao longo da muralha dentro de um cesto.
               26 Chegando a Jerusalém, Saulo procurava agregar-se aos discípulos; mas todos tinham medo dele, não conseguindo acreditar que fosse verdadeiramente discípulo.
               27 Barnabé  tomou-o então consigo, introduzindo-o junto aos apóstolos, e lhes contou como, no caminho, ele vira o Senhor, que lhe falara, e como, em Damasco, ele se tinha expressado com firmeza em nome de Jesus. 28 A partir de então, Saulo ia e vinha com eles, em Jerusalém exprimindo-se com firmeza em nome do Senhor. Ele conversava com os helenistas e discutia com eles; eles porém  procuravam matá-lo. 30 Quando os irmãos souberam disso, levaram-no para Cesaréia e, de lá, fizeram-no partir Para Tarso.
               31 A igreja, em toda extensão da Judéia, da Galiléia e da Samaria, vivia então em paz, ela se edificava e procedia no temor do Senhor, crescendo, graças ao apoio do Espírito Santo.
TRADUÇÕES USADAS
PARA O DESENVOLVIMENTO
DO TRABALHO

TEB. (Tradução Ecumênica da Bíblia)
NVI. (Nova versão internacional)
ARC. (Almeida revista e corrigida)
NTI. (Novo testamento interlinear)
UMA PROPOSTA DE ESTRUTURA PARA A EXPANSÃO
DO EVANGELHO EM ATOS 9:1-31
            Para esta proposta estaremos nos baseando em Atos 1:8. Ao analisarmos todo o contexto de expansão do evangelho notamos que tal versículo é muito importante, pois são as ultimas instruções de Jesus aos seus discípulos. Nos Atos, o Espírito Santo é o verdadeiro iniciador da missão apostólica, como o era da mesma missão de Jesus. O seu caráter de poder (força) manifesta-se em comportamentos humanos por vezes insólitos: o falar em línguas (2:4), assimilado ao dom de profecia (2:17; 11:28; 20:23; 21:4-11). Mas esse poder não intervém de maneira anárquica: comunicado a Jesus e derramado por ele (2:33), o Espírito Santo é recebido em relação com o batismo em nome de Jesus (1:5) ele é dado principalmente visando à pregação e ao testemunho (4:8-31; 5:32; 6:10); intervém diretamente na missão entre os gentios agindo sobre o comportamento dos apóstolos.
            O testemunho prestado a Cristo é antes de tudo testemunho da sua ressurreição (1:22). Nos Atos as testemunhas são antes de tudo os Doze (10:41), mas outros também são igualmente chamados testemunhas, em sentidos um pouco diferentes.
            De Jerusalém e dos judeus ao mundo inteiro e aos gentios, tal deve ser o “espaço” do testemunho apostólico e tal é o plano dos Atos, que estão visivelmente atentos a este espaço simultaneamente geográfico e humano em que se difunde essa palavra. Em Lucas, a manifestação de Jesus, começada em Nazaré, terminava em Jerusalém. Nos Atos, o evangelho parte de Jerusalém (2:5) para atingir a Samaria e a Judéia (8:1); depois atinge a Fenícia, Chipre e a Síria (11:19-22), de onde parte para a Ásia Menor e a Grécia (13:18), antes de chegar a Roma (28:30). Assim o percurso da palavra “até as extremidades da terra”, querido pelo ressuscitado Cristo (1:8) e prefigurado no dia de pentecostes (2:10) entra na sua etapa decisiva. Se o evangelho é assim anunciado por toda a parte, é por ser destinado a “todos os homens”: Primeiro a Israel (2:39; 3:25-26) depois as nações pagãs. Determinada por Deus (2:39; 15:7-11) e por Jesus (22:21), esta mensagem do evangelho e da salvação aos gentios é o tema principal do livro. A conversão de Cornélio (10:1), a evangelização dos gregos de Antioquia (11:19), a missão de Barnabé e de Saulo (13:1) são as primeiras etapas dessa abertura que,  posta em questão em Antioquia e em Jerusalém, é finalmente confirmada, com isso Saulo pode empreender a grande missão que lhe permitirá, graças ao seu cativeiro (21:33-38; 28:14), levar o evangelho, segundo a vocação que lhe é peculiar, até Roma, capital do mundo pagão (28:31). Não obstante as incertezas de detalhes, as grandes linhas do plano dos Atos aparecem claramente nessas etapas simultaneamente geográficas e humanas que marcam a difusão da palavra de Deus.
             Esta estrutura não é ainda a de Atos 9:1-31, que apresentaremos mais adiante. Essa proposta nos ajudará a entender como Atos 1:8 é o eixo central dessa expansão e como Lucas insere Saulo na história, para ser o pivô dessa expansão como veremos a seguir:
ESTRUTURA INTERNA
At-1:8
A) Más recebereis uma força, a força do Espírito Santo que virá sobre vós;
B) E sereis então minhas testemunhas em Jerusalém;
C) Em toda Judéia e Samaria;
D) Até as extremidades da terra.

ESTRUTURA EXTERNA
A) PENTECOSTES, MAS RECEBEREIS UMA FORÇA (2:1-41)
            ° Sumário (v.1)
            ° Evento (v.2-4)

B) TESTEMUNHAS EM JERUSALÉM (2:5-7:60)
            ° Primeiro impacto (2:5-13)
            ° Discurso de Pedro (2:14-39)
            ° Acréscimo de cristãos e a comunhão deles (2:40-47)
            ° A cura de um coxo (3:1-10)
            ° Estevão, testemunho e martírio (6:8-7:60)

C) TESTEMUNHAS NA JUDÉIA E SAMARIA (8:1-40)
            ° Perseguição e dispersão (v.1-4)
            ° Trabalho missionário de Filipe (v.5-13)
            ° Pedro e João investigando os fatos (v:14-25)
            ° Filipe e o eunuco Etíope (v.26-40)

D) TESTEMUNHAS ATÉ AS EXTREMIDADES DA TERRA (9:1-28:31)
            ° A vocação de Saulo, Lucas o introduz na história (9:1-31)
            ° O testemunho atinge a Fenícia, Chipre e a Síria (11:19-22)
            ° Ásia Menor e Grécia são alcançadas (13-14)
            ° Saulo e o testemunho chegam a Roma (28:11-31).
            Aqui explicaremos a estrutura acima, de como o relato lucano em Atos gira em torno de 1:8 para mostra a expansão do evangelho, através dos apóstolos e de como ele introduz Saulo em seu relato para a parte final dessa expansão. É o Espírito quem constitui realmente o movimento de Jesus: a sua primeira comunidade em Jerusalém e a missão a todos os povos. O que Lucas narrou anteriormente, em 1:12-26 está orientado especialmente para o passado: o retorno Jerusalém e o templo e a constituição dos doze apóstolos (restauração do novo povo de Israel); agora Lucas retoma o inicio do seu relato em 1:8, projetando o movimento de Jesus numa perspectiva  de futuro e de missão a todos os povos da terra.
A) Más recebereis uma força: (2:1-41)
            É o que Jesus promete antes da ascensão, e isso acontece no dia de pentecostes, literalmente o da qüinquagésima essa festa era celebrada cinqüenta dias após a páscoa, comemorava a aliança do Sinai entre Deus e Israel; ele reunia em Jerusalém multidões de judeus vindos de numerosos países. Este será o palco do dom inicial do Espírito por Jesus (2:33); esse dom vai se manifestar por uma espécie de explosão de linguagem. Em Lucas a pregação de Jesus começava em Nazaré (Lc-4:16-30); aqui a pregação apostólica (2:1-41) parte de Jerusalém (cf. 1:8).
B) Testemunhas em Jerusalém: (2:5-7:60)
            Após o sopro violento, as línguas de fogo evocam uma mesma fonte de poder que comunica o dom de falar em línguas novas e de proferir uma linguagem nova.
            O fenômeno que se produz evoca seguramente a “glossolalia” ou “falar em línguas”: os apóstolos se exprimem um pouco à maneira dos antigos profetas (cf. Nm-11:25-39; 1Sm-10:5-6; 1Rs-22:10) e, em todo caso, como os cristãos empolgados pelo
Espírito nos primeiros tempos da igreja (cf. 10:46; 19:6;1Co-12:14) eles falam em um estado de exaltação característico (2:13), mas falar em outras línguas é fazer-se entender na língua dos outros e tal é, para o autor, o aspecto mais importante do acontecimento. Aqueles que receberam o dom da “glossolalia” começam então testemunhar sobre as maravilhas de Deus perante a multidão reunida (2:7). Discursa perante a multidão com ousadia (2:14-39). Pessoas se convertiam ao cristianismo através do testemunho dos apóstolos em Jerusalém (2:40-47). João e Pedro curam um coxo na porta do templo (3:1-10). Estevão cheio do Espírito Santo testemunha e é apedrejado.
 C) Testemunhas na Judéia e Samaria: (8:1-40)
            No dia do martírio de Estevão, começou uma grande perseguição aos cristãos de Jerusalém; no entanto todos foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria com exceção dos apóstolos (8:1c). Lucas lembra como o Senhor ressurreto havia ordenado aos seus seguidores que fossem testemunhas “em toda a Judéia e Samaria” (1:8). Lucas dá a entender que a perseguição foi unicamente contra os Helenistas, não contra os doze apóstolos, e é possível que também não tenha sido contra o grupo dos hebreus. Um dos helenistas dispersados é Filipe. Seus Atos estão narrados em (8:5-40) e em (21:8-9), onde se fala dele pela última vez como evangelista e um dos sete. [2]Nesses Atos de Filipe, há dois momentos contrapostos. O primeiro (8:5-22) fala-nos da evangelização na Cidade de Samaria, onde Filipe faz sinais e milagres tendo grande êxito. Contudo, esse primeiro momento missionário é insuficiente. Na evangelização imponente e extraordinária de Filipe, ainda não havia Espírito Santo. Ele chega somente com a visita de Pedro e João, de Jerusalém. No segundo momento da evangelização de Filipe (8:26-40). Ele não vai ao norte, mas ao sul; não vai a uma cidade, mas ao deserto; não vai evangelizar multidões; mas uma só pessoa: o eunuco etíope. Filipe já não faz sinais e milagres, mas põe-se a caminhar com o eunuco e a escutar o que ele está lendo.
D) Testemunhas até as extremidades da terra:
            Agora que Estevão e Filipe deram suas contribuições pioneiras nos preparativos para a missão mundial, Lucas está pronto para contar a história de Duas conversões notáveis que a fizeram disparar. A primeira é a de Saulo de Tarso e a segunda, a do centurião Cornélio, que foi o primeiro gentio a se tornar cristão. É através de Saulo que Lucas vai contar como o evangelho chega “até as extremidades da terra” (1:8) 
           
                                                                  LOCAL E DATA
            Segundo [3]Pablo Richard o Livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito entre os anos 80 e 90, provavelmente em Éfeso. O Livro de Atos não é claramente atribuído a ninguém. Podemos observar uma breve introdução no início do texto, mas sem saber quem o está escrevendo. Nesta breve introdução, é possível notar claramente que o texto não está sendo iniciado aqui, mas é a continuação de outro documento já escrito. Ou seja, Atos não é um livro completo por si mesmo. Ao que tudo indica, Atos é a continuação do terceiro evangelho, visto ser dirigido ao mesmo personagem (At.1.1-2; Lc.1.1-3). Isso é um fato importantíssimo a ser ressaltado na busca pela autoria do documento, pois se sabe ao certo que o mesmo autor é responsável por dois documentos importantes. Contudo, um ponto relevante pode ser colocado aqui em relação a esse link entre o terceiro evangelho e Atos, pois  em nenhum dos documentos o autor revela-se claramente. Ou seja, esse link existente entre um livro e outro, nada mais prova senão que ambos os documentos tem o mesmo autor, mas nada se acrescenta sobre quem ele de fato é. Sobre isso, [4]Carlos Osvaldo Pinto diz que: “mesmo embora tenha permanecido como obra anônima a evidência externa e interna aponta fortemente para Lucas como seu autor”.
            Na verdade ele escreveu dois livros. O primeiro foi o seu evangelho, cuja autoria foi lhe atribuída por tradições antigas e reconhecidas e que, quase com absoluta certeza, é o “primeiro livro” mencionado no início de Atos. Assim, Atos foi o seu segundo livro. Os dois formam um par óbvio, ambos são dedicados a Teófilo (Lc 1,3 e At 1,1), e tem o mesmo estilo literário grego. Segundo Pablo Richard: Esse Teófilo pode ter sido uma pessoa concreta (era normal dedicar uma obra a personagens ilustres) ou um nome simbólico para designar seus interlocutores. Teófilo significa “amigo de Deus” e poderia referir-se aos futuros catequistas e evangelizadores, aos quais, Lucas escreve este tratado de ensinamento superior. (RICHARD: Pablo, pg. 17).
                     Para [5]John stott o motivo pelo qual Lucas escreveu sua obra em dois volumes sobre a origem do cristianismo pode-se citar pelo menos três respostas: Ele escreveu como um historiador cristão, como um diplomata e como um teólogo-evangelista. A intenção do autor em relação ao dedicado de sua obra é que ele pudesse ter certeza daquilo que lhe foi ensinado. Portanto sua intenção é teológica, é produzir fé no seu leitor. Segundo [6]Daniel Marguerat os dois volumes da obra lucana foram dissociados quando da formação do cânon do segundo testamento, ainda antes do ano 200 d.C. (MARGUERAT: 2OO3, p. 13).
CONTEXTO LITERÁRIO
            [7]Para ler uma obra antiga, é preciso determinar o seu texto e, no caso de Atos, essa determinação é um problema bastante complexo. A maioria das testemunhas desse texto apresenta duas formas principais: o texto chamado “sírio” ou “antioqueno”, e o texto chamado “egípcio” ou “alexandrino”. Mas pode-se reuni-los sob o nome de “texto corrente”, tal a semelhança que transparece entre um e outro quando comparados a uma terceira forma de texto, chamada “ocidental”. Em geral essas variantes “ocidentais” não parecem reproduzir o texto primitivo dos Atos. Mas a sua antiguidade e a sua difusão, tanto no Oriente como no Ocidente, são notáveis, bem como o seu interesse histórico ou doutrinal.        
            Esta é a história da chamada de Saulo. Não é uma narração de Sua “conversão” psicológica, como com frequência é caracterizado, senão a história de como a graça divina transforma inclusive a vida de um perseguidor.
            Segundo [8]Fitzmyer os interpretes modernos das cartas paulinas e dos Atos levantam com frequência a questão de que a experiência de Saulo no caminho de Damasco deveria ser rotulada como uma “conversão” ou uma “chamada” e que considerar esta experiência como a de Agostinho e Lutero, ou como a de “consciência introspectiva”, se deve a uma má interpretação das cartas de Saulo, pois em (Fl-3:4-6) e (Gl-1:13-14) Saulo mesmo fala do seu passado judeu com uma consciência robusta. Se usarmos a palavra “conversão” para o relato de Atos, esta não deveria incluir todos os nuances de uma experiência psicológica em sentido Agostiniano, mesmo em o caso de que Lucas tenha descrito a chamada de Saulo como uma experiência que tem transformado de perseguidor a testemunha de Cristo ressuscitado.

CONTEXTO HISTÓRICO
            O Cristianismo estava sendo perseguido e assolado pelos judeus e pelo Império Romano, acusado de ser religião ilegal. Ao mesmo tempo, divisões e facções internas, junto com a presença de falsos mestres ameaçavam a saúde do movimento. O cristianismo ainda estava em desenvolvimento, mas sua obra missionária era “invejável“, ainda que tenha se iniciado com perseguição. O livro encoraja os leitores pelos relatórios do pregresso inevitável do evangelho através da Obra do Espírito Santo. Incentiva a continuação da obra missionária iniciada por Pedro, Paulo e outros.

CONTEÚDO
Primeiro relato intercalado – os Atos de Saulo: 9:1-31
            Estrutura:
            A) Saulo persegue a igreja: vs. 1-2
            B) Encontro com Jesus no caminho para Damasco-
                 ° Resistência de Saulo: vs. 3-9
            C) Encontro de Saulo com Ananias em Damasco-
                 ° Conversão de Saulo: vs. 10-19a
            D) Atividade missionária de Saulo e perseguição: vs. 19b-30
                 ° Missão em Damasco: vs. 19b-22
                 ° Perseguição contra Saulo – Fuga de Damasco: vs.23-25
                 ° Missão em Jerusalém: vs. 26-28
                 ° Perseguição em Jerusalém – Fuga para Cesaréia e Tarso: vs. 29-30
            E Sumário conclusivo: v.31

A) SAULO PRESEGUE A IGREJA: VS. 1-2:
            [9]Esses versículos retomam o fio narrativo da presença de Saulo na morte de Estevão (At-7:58b; 8:1a) e sua posterior perseguição de Jerusalém (8:3). O movimento de Jesus é identificado como “Os discípulos do Senhor” (9:1), “os do caminho” (9:2). Normalmente esse caminho deveria significar a maneira de viver e agir, a conduta por excelência, (cf. Is-30:21; Pv-15:10 TEB). Mas a esse sentido abstrato, os Atos, e só eles, acrescentam um sentido novo: o termo é um dos que designam os cristãos (cf. At-11:26). Porque eles seguem o caminho do Senhor, de Deus (cf. At-t18:25-26  Mt-22:16; Sl-27:11) e o caminho da salvação (At-16:17).
            [10]Os termos que Lucas usa para se referir a Saulo antes da sua conversão parecem ser deliberadamente escolhidos para retratá-lo como “um animal selvagem e feroz”. O verbo lymainomai”, cuja única ocorrência no N.T se encontra em Atos 8.3, em referência à “destruição” que Saulo causou à igreja, é empregado no Salmo 80.13 [na Septuaginta], em relação a animais selvagens destruindo uma vinha; o seu sentido específico é “destruição de um corpo por um animal selvagem”.
            Mais tarde, os cristãos de Damasco o descreveram como aquele que tinha causado um “extermínio em Jerusalém” (At 9.21), onde o verbo empregado é“portheo”, que significa “destruir, assolar, espancar” que também aparece no texto de Gl 1.13. Continuando a mesma imagem, o erudito J.A. Alexander sugere que a menção de Saulo “respirando ameaças e morte” (At 9.1) era uma “alusão ao arfar e ao bufar dos animais selvagens”. Portanto era esse o homem (mais animal selvagem do que ser humano) que em poucos dias seria um cristão convertido e batizado.

            A conversão de Saulo foi à maravilhosa graça de Deus. Paulo sempre mencionou que Deus tomou a iniciativa de salvá-lo conforme sua vontade soberana (Gl 1.15,16). Além disso, Paulo ilustrou essa verdade com pelo menos três imagens dramáticas. Em primeiro lugar, Cristo o conquistou (Fp 3.12), o verbo “katalambano” dando a idéia que Cristo o “capturou” antes que tivesse a oportunidade de capturar algum cristão em Damasco. Em segundo lugar, ele comparou sua iluminação interior com a ordem criadora “Haja luz” (Gn 1.3) ou “das trevas resplandecerá a luz” (II Co 4.6). Em terceiro lugar, ele escreveu que a graça de Deus “transbordou” sobre ele, como um rio em época de cheia, inundando seu coração com fé e amor (I Tm 1.14). Assim a graça de Deus o capturou, iluminou seu coração e o inundou como uma enchente.
            Os discípulos são “homens e mulheres” (essa linguagem inclusiva aparece frequentemente nos Atos (cf. 5:14; 8:3.12; 9:2; 22:4). Saulo esperava segurar os seguidores de Jesus em Jerusalém, a fim de destruí-los ali (8:3). Mas alguns tinham escapado da sua rede, fugindo para Damasco, onde várias sinagogas serviam uma grande colônia judaica. Determinado a perseguir esses discípulos fugitivos em cidades estranhas, Saulo elaborou uma trama para liquidá-los e persuadiu o sumo sacerdote a sancioná-la (9:1b-2). Então, esse inquisidor auto-nomeado deixou Jerusalém armado com a autorização escrita às sinagogas de Damasco para que, caso achasse alguns que eram do Caminho assim homens como mulheres os levassem presos para Jerusalém (v. 2). Em linguagem moderna, o sumo sacerdote lhe concedeu uma ordem de extradição. [11]Saulo queria trazer amarrados para Ierousalém (nome sagrado da cidade); esse nome é usado porque Saulo quer reintegrar o movimento de Jesus à institucionalidade  judaica.  Em 8:1 afirma-se que “os do caminho”  vivem em Ierosólima (nome civil da cidade), pois a comunidade perseguida (a dos helenistas) não está integrada à institucionalidade judaica; por isso é perseguida.
B) ENCONTRO DE SAULO COM JESUS NO CAMINHO PARA DAMASCO VS.3-9:
            Alguns aspectos atípicos cercam a conversão de Saulo, por um lado havia eventos dramáticos e sobrenaturais, como o facho de luz e a voz que o chamou pelo seu nome. Por outro lado, havia os aspectos históricos únicos, como a aparição do Jesus ressurreto, que Saulo alega, mais tarde, ter sido a ultima (9:17,27 e 1 Co-15:8), e sua comissão como apóstolo, semelhante ao chamado de Isaías, Jeremias e Ezequiel para serem profetas, e mais particularmente ser o apóstolo dos gentios.
             Saulo encontra-se com Cristo ressuscitado em suas vítimas. Jesus está vivo corporalmente nos cristãos que Saulo persegue. Saulo vê Jesus ressuscitado. Isso não aparece aqui, mas fica explicitado em (9:17, 27). O próprio Saulo dirá em suas cartas: “Por acaso não vi Jesus, nosso Senhor?” (1 Co-9:1; 15:8). Saulo depois de ver Jesus cai por terra, fica cego e como morto.
            Aqui surgem dois estilos da literatura judaica, que são: a profecia e a apocalíptica, iremos mostrar a literatura profética e depois a apocalíptica com relação ao nosso texto, não iremos nos aprofundar no assunto devido à densidade do mesmo e para provocar curiosidade ao leitor, tentaremos encontrar paralelos desse tipo de literatura com a conversão de Saulo.
PROFECIA: [12]Anderson de O. Lima sugere em seu artigo “Defesa apocalíptica de Paulo” a leitura de Amós 3.9-12, texto do século VIII a.C., tipicamente profético. O profeta convida nações pagãs, geralmente vistas como epítomes do pecado, para subir nos montes de Samaria e assistir de camarote às injustiças que há na cidade, então capital do Reino do Norte, Israel. Por fim, o profeta prevê a invasão assíria, a destruição da nação e da injustiça dela. Segundo ele tense então, a partir desse exemplo, algumas características da profecia para enumerar:
1. A profecia é local, não prioriza em sua fala o mundo ou o universo inteiro, antes, sua preocupação é a nação ou no máximo países vizinhos;
2. A profecia nasce da oralidade, e o profeta anuncia as visões e oráculo oralmente ao povo. Se, temos profecia escrita, é porque depois alguém, comovido pela mensagem, a registrou por escrito, mas profetas não eram escritos a princípio;
3. A preocupação da profecia é principalmente social, isto é, lida com a pobreza, com a violência, com a injustiça, e com base no caráter de Deus, que é justo, prevê uma ação divina para alterar o rumo dos acontecimentos e punir os culpados;
4. A profecia típica é um fenômeno religioso principalmente pré-exílico, e que sofreu transformações com o tempo e a partir do século VI vemos nela cada vez mais a presença de elementos apocalípticos, o que pode ser considerado uma evolução da profecia.
            O relato lucano da chamada de Saulo tem sido frequentemente comparado com o chamado dos profetas do antigo testamento, por exemplo: (1 Rs-22:19), (Is-6:1-10), (Ez-1, 2:1-3), (Jr-1:4-10), más é importante também levar em conta uma diferença, no antigo testamento as histórias de chamada são apresentadas como uma comissão para uma missão especial, não como uma chamada à mudança de vida. Dos chamados proféticos analisaremos o de Ezequiel por ser o que mais se assemelha ao nosso objeto de estudo. No livro do profeta Ezequiel (1:1) o profeta diz ter tido visões da glória de Deus, nas outras visões da glória, é o templo, essa casa terrestre, que serve de quadro para o encontro do Senhor. Agora é no céu que, a visão aparece a Ezequiel, visto que ele se encontra na Babilônia. Essas indicações topográficas dão todo o sentido da mensagem ezequielana: longe do santuário de Jerusalém, os deportados não estão, a despeito do que se pensa (11:15), longe do Senhor; porque do alto do seu palácio celeste ele reina sobre toda a terra;  portanto, está próximo de seu povo disperso entre as nações. Ezequiel designa por glória o ser divino enquanto se revela; é a manifestação do poder, da santidade de Deus, perceptíveis através dos sinais: fenômenos cósmicos (tormenta 1:4), símbolos litúrgicos. Contudo a representação ezequielana apresenta certas particularidades: a glória tornou-se imediatamente visível, pelo menos aos olhos do profeta, numa explosão de luz; além disso, ela tem uma aparência bastante semelhante à forma humana; por fim, aparece como realidade autônoma, quase hipostasiada: sai do templo, se posta acima da colina próxima, retorna a ou santuário. Por outro lado, Ezequiel busca suavizar a novidade e a audácia de tais expressões por formulas de aproximação: “Como: à semelhança de” etc. Mas ele busca, sobretudo, aproximar os dados dificilmente consiliáveis que são: o sentido da transcendência e a afirmação da proximidade de Deus; a convicção da presença divina e a certeza de que a glória não pode ser atingida pela iminente ruína da Jerusalém infiel.
            Filho do homem muito freqüente em Ezequiel, que utiliza várias vezes esta expressão marca especificamente neste capítulo 2, que prolonga a grande visão do inicio - um contraste sugestivo; diante da glória do Senhor, cuja grandeza parece quase terrificante (1:28), Ezequiel não passa de um ínfimo filho de homem (1:3), incapaz até mesmo de ficar de pé. Depois de cair com o rosto em terra, Deus fala com o profeta e diz que o está enviando. Depois Ezequiel vai para Tel-Abib que signinifica “colina da espiga”. Com alguns manuscritos hebraicos pode-se também traduzir: “morei lá, sete dias, no meio deles, desconcertante.
            Agora vejamos o que aconteceu com Saulo, um facho de luz do céu o envolve com seu brilho, ou seja, como Ezequiel Saulo vê a glória de Deus. Ele cai por terra como Ezequiel e ouve uma voz que o chamando pelo nome, o grego transcreve no (v.4) e (v.17), o mais exatamente possível, a pronúncia semítica do nome de Saulo, “Saul”. “Eu sou Jesus”, o Eu Sou é aqui como em outras passagens (Lc-21:8; 22:70; 24:39; Jo-6:20,35), uma fórmula de revelação. Na revelação de Cristo ressurreto para Saulo, fica claro que na pessoa de seus discípulos quem é perseguido é o Senhor Jesus. Jesus fala para Saulo que o enviará assemelhando mais uma vez sua chamada ao do profeta. Mas Paulo levantasse cego, pois há um preço a ser pago por ver a glória de Deus, Ezequiel fica sete dias atônito, atordoado ou desconcertante, Jacó ao ter um encontro com Deus no vau do Iaboq fica manco (Gn-32:26).
            [13]APOCALÍPTICA: Agora podemos seguir para a apocalíptica, cujo principal exemplo continua sendo o livro do Apocalipse de João, o último livro do Novo Testamento e o texto que deu nome ao gênero. [14] Esse gênero da literatura judaica existiu por vários séculos, e muitos dos textos apocalípticos são datados do chamado “período interbíblico”. Mas a apocalíptica continuou produzindo textos como o nosso Apocalipse de João e outros até o século III d.C. Porém, sugiro a leitura de um texto dos primórdios, que é apocalíptico, mas que também permanece próximo da profecia. Trata-se de Isaías 24.1-3. Após lê-lo, veja as características da apocalíptica conforme assinalamos abaixo:
1. A apocalíptica é mais textual que oral, os apocalípticos já escreviam suas visões e não as divulgavam oralmente como os profetas, embora eles mesmos ainda pudessem se considerar profetas;
2. A apocalíptica costuma apresentar viagens celestiais que os visionários têm em momentos de êxtase. Ou seja, são revelações inconscientes de coisas celestiais;
3. A apocalíptica é universal, e não local. Quando Deus intervém apocalipticamente na história, não muda uma nação, não troca um governo, mas acaba com a terra e todos os seus moradores, sejam eles bons ou maus. Astros são abalados, os elementos se misturam e nesse caos não há como escapar;
4. A apocalíptica apresenta-se em linguagem simbólica, velada. Há sempre uma espécie de “segredo apocalíptico” que não pode ser revelado, algo visto ou ouvido que não é permitido repetir (Dn 12.4; Ap 10.4). As bestas, mulheres, seres de várias cabeças e chifres, números secretos, são símbolos que já ocultam o significado real da mensagem;
5. A apocalíptica é pessimista com relação à restauração desse mundo. Enquanto o profeta espera a restauração política de sua nação, o apocalíptico só vê melhorias se o mundo acabar. A nova criação é assim, a sua esperança;
6. A apocalíptica é quase sempre “pseudonímica”. Isso significa que os visionários não revelam suas identidades em seus escritos, antes, costumam atribuir as viagens celestiais a outros personagens como Enoque, Pedro, Moisés, Daniel...;
7. A apocalíptica costuma apresentar uma revelação progressiva, gradual. No céu, o visionário visita vários estágios, vários templos, vários céus, vários selos, trombetas ou taças... [8] Em Divina Comédia o poeta italiano da Idade Média, Dante Alighieri, criou uma viagem celestial em que visitou inferno, purgatório e céu, demonstrando que compreendeu essa característica progressiva da apocalíptica judaica. Geralmente, só no estágio mais elevado o visionário vislumbra a glória de Deus;
8. A apocalíptica costuma contrapor a magnitude da revelação à fraqueza do visionário. Veja Ezequiel 1.28, Daniel 8.26-27 e Apocalipse 1.17, onde os visionários perdem as forças por terem vislumbrado coisas santas demais. Assim, podemos dizer quem em geral, na apocalíptica judaica quem recebe grandes revelações sofre como consequência a fraqueza física.
            Paulo não nasceu no tempo da profecia, mas no tempo da apocalíptica. Por isso, no momento em que ele decidiu relatar sua experiência religiosa, escolheu a linguagem apocalíptica, própria de seu tempo e lugar. É isso o que veremos a seguir, lendo 2coríntios 12.1-10.
2 Co-12:1-10
“(1) Em verdade que não convém gloriar-me; mas passarei às visões e revelações do Senhor. (2) Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos (se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe), foi arrebatado até ao terceiro céu. (3) E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) (4) foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras indizíveis, de que ao homem não é lícito falar. (5) De um assim me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas. (6) Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isso, para que ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve. (7) E, para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um anjo de Satanás, para me esbofetear, a fim de não me exaltar. (8) Acerca do qual três vezes orei ao Senhor, para que se desviasse de mim. (9) E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. (10) Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando estou fraco, então, sou forte”
            Como nos foi proposto fazer uma analise comparativa entre 2co-12:1-10 e At-9:1-35, tive por necessidade escrever todo o texto para comparar seus aspectos e suas ligações.
            Jesus deixou em Jerusalém, um pequeno grupo formado por doze homens, ou seja, seus doze apóstolos e mais alguns que aderiram ao movimento que creram nas pregações de Jesus. Em suma, são estes homens vêem ser crucificado, testificaram sua ressurreição e ficaram em Jerusalém a espera da promessa (Lc-4:49), e esperando volta de Jesus que para eles não demoraria. Fora desse círculo mais íntimo, Jesus deixou na galiléia e nas aldeias por onde ensinou centenas de simpatizantes, que não se tornaram seus seguidores itinerantes, más que também creram em sua mensagem original e deram segmento a ele após sua morte nas regiões da Galiléia. Paulo não fazia parte desse grupo, aparece entre os novos adeptos de Jesus menos de dez anos após sua morte, e logo passa a pregar e implantar outras comunidades independentes daquelas dos apóstolos originais, formando uma linha independente dessa igreja primitiva, que em muitos aspectos era oposta às demais. Sem ter vivido a experiência de conhecer e seguir Jesus, e sem inspirar-se no ensino dos doze, Paulo pregou o Jesus que ele conhecera através de uma experiência religiosa particular, quando o Filho de Deus veio ao seu encontro em sua forma glorificada.
            [15]Segundo Anderson de O. Lima, em (2Co-12:1-10) Paulo faz uma defesa do seu apostolado. Um dos grandes problemas enfrentado por Paulo girava em torno de sua autoridade apostólica, que autoridade tinha ele para pregar e instituir igrejas independentes entre os gentios? Com que direito ele dizia ser apóstolo? Não deveriam tais comunidades paulinas procurar seguir aquilo que os doze ensinavam após o primeiro contato com Jesus? Entender esse conflito e o posicionamento de Paulo é fundamental para compreender o texto de 2coríntios e também as demais cartas autenticamente paulinas.
            Em Atos dos Apóstolos 1.21-22 temos os critérios de Lucas para a escolha de um apóstolo. Narra-se a escolha de Matias para substituir Judas, e em resumo, os critérios para se tornar apóstolos são:
            Só deveria haver doze apóstolos. Era necessário substituir Judas, recompor o grupo dos doze, mas também não deveriam ter mais do que isso. Aqui os apóstolos são os líderes da igreja, e o número doze talvez fosse para Lucas importante, simbolizando os patriarcas e as tribos do Antigo Testamento. Assim, toda a nação estaria representada nos doze, e ninguém poderia ser apóstolo fora desse grupo fechado de Jerusalém.
            Segundo os critérios de Lucas, só podia ser apóstolo alguém que vivera com Jesus e os demais apóstolos desde o começo do ministério de Jesus. Assim, vemos que no livro de Atos, que tanta ênfase dá à trajetória de Paulo, o seu título apostólico não era reconhecido. Paulo não viu Jesus, podia ser pregador, missionário, mas nunca um apóstolo. O objetivo do apostolado em Atos é testemunhar a respeito da ressurreição de Jesus. Eles não eram necessariamente missionários, enviados como sugere a palavra “apóstolo”. Por isso tinham que conhecer o Jesus humano e o Jesus glorificado, para que seu testemunho de que ele morreu e ressurgiu fosse digno de confiança. Outra vez, Paulo está desqualificado. Algumas características que impediam Paulo de ser um apóstolo:
1. Paulo nunca viu Jesus nem andou com os doze apóstolos, e isso desqualifica sua pregação que é indireta e o impede de ser um apóstolo autorizado na opinião de alguns;
2. Paulo fora fariseu e perseguidor da igreja, seu passado condenável preocupava parte dos cristãos primitivos;
3. Paulo prega uma fé separada do judaísmo que os apóstolos e até Jesus seguiram, e isso é um nítido afastamento das origens do movimento;
4. Paulo cria divisão nas sinagogas ao atrair os simpatizantes gentios, e como seu trabalho causa tanta discórdia, talvez não seja um trabalho benéfico.
            Em (2 Co-12:1-10) é nítido a presença de pregadores judeus denominados por Paulo de” superapóstolos”. Ao que parece Paulo para se defender, precisou “gloriar-se” e teve que apelar para revelações transcendentais a fim de que não ficasse atrás desses oponentes. (2 Co-12:1-10) [16]é então um relato de viagem celestial extática que Paulo faz em estilo apocalíptico para provar que não deve nada aos seus rivais competidores quanto as experiências sobrenaturais.
            Para aquilo que me foi proposto para este trabalho com relação à ligação de (At-9:1-9) com (2 Co-12:1-10), minha hipótese é que Paulo está contando sua experiência de conversão, neste caso teríamos a narração direta de quem viveu a experiência, e agora a relata com riqueza de detalhes, sabemos que a referência cronológica citada por Paulo “há catorze anos” não liga cronologicamente o episódio de Atos com o de 2 Co:12. Segundo [17]Helmut Koester, Paulo se convertera em 35 d.C., e o texto de 2coríntios 12 deve ser datado em 54 d.C. Consequentemente faltam alguns anos para que liguemos a conversão de Paulo à carta.
            Saulo distingue bem o acontecimento do caminho de Damasco, aparição do Ressuscitado, (1 Co-9:1; e 15:8) das revelações que teve depois (At-16:9; 18:9; 23:11). Por isso defendo minha hipótese de Saulo está relatando sua experiência de conversão, pois ele não citaria algo que ocorreu há catorze anos se isso não tivesse sido algo que marcara sua vida.    


ANÁLISE COMPARATIVASOBRE OS TRÊS
RELATOS DA CONVERSÃO DE PAULO
            É surpreendente que, dentro da história de Atos, relativamente pequena, Lucas tenha incluído três narrações da conversão de Saulo, a primeira como parte de sua narrativa (9:1-19); a segunda, nas palavras de Paulo diante da multidão de judeus em Jerusalém (26:5-16); e a terceira, novamente nas palavras de Paulo, diante de Agripa (26:12-18). “Lucas emprega essas repetições”, escreveu [18]Haenchen, “apenas quando atribui uma importância extraordinária a alguma coisa e deseja que ela fique impregnada de forma inesquecível no leitor. É o que acontece aqui “se a repetição é explicada pela importância do tema, como então explicar as diferenças entre os três relatos?
            Com certeza, elas indicam que Lucas não era um adepto do literalismo: ele não viu nenhuma necessidade de garantir que cada relato fosse uma réplica exata e literal das outras. Pelo contrário, já que a cada vez que a história é contada, o público e, portanto, os propósitos são diferentes, naturalmente isso reflete na apresentação detalhada. Quando estudamos como um único autor (Lucas) conta a mesma história de três formas diferentes, isso nos ajuda a entender como os evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) também conseguiram contar a mesma história de formas diferentes. Assim, a prática de Lucas lança luz sobre a “crítica da redação”, mostrando como a obra de um redator (editor) pode ser influenciada por seu propósito teológico.
            O esboço da história da conversão de Saulo é idêntico em todos os três relatos. Todos os três nos contam (1) que Saulo se lançou numa campanha violenta de perseguição contra os seguidores de Jesus e que o sumo sacerdote a sancionou; (2) que na estrada de Jerusalém para Damasco, uma forte luz do céu brilhou sobre ele e o jogou no chão; (3) que a voz do Senhor ressurreto dirigiu-se a ele com a pergunta: “Saul, Saul, por que me persegues?”; que Saulo respondeu: “Quem és tu, Senhor?” e que Jesus replicou: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”; e (4) que Saulo recebeu a ordem de levantar-se e, depois, foi comissionado, indicando que ele fora escolhido para ser testemunha de Jesus junto aos gentios.
            Mas algumas partes da história divergem muito; cada relato acrescenta algo que os outros omitem. Vamos nos referir aos relatos como sendo A (9:1-19), B (22:5-16) e C (26:12-18). Enquanto ao local da conversão, A e B dizem “perto de Damasco”, C apenas “no caminho”. Quanto ao horário, B e C dizem, “ao meio dia”, enquanto A não faz nenhuma referência ao horário. Em relação à luz, todos os três que ela vinha do céu, mas apenas C a descreve como “mais resplandecente que o sol”. Em relação a voz, apenas C diz que ele falou em hebraico (na verdade, em aramaico),  e acrescenta o provérbio sobre recalcitrar contra os aguilhões. Apenas B relata a segunda pergunta de Saulo “Que farei Senhor?” A e B dizem que ele foi cegado, mas apenas A conta como ele foi curado, enquanto C não menciona a cegueira nem a cura. A e B mencionam o batismo de Saulo, C não.
            Essas variações são bem triviais: os seus detalhes diferentes completam, e não contradizem um ao outro. Duas outras, porém, são consideradas discrepância por alguns comentaristas. A primeira diz respeito à experiência dos companheiros de Saulo. A, diz que eles ficaram emudecidos, mas C diz que eles caíram por terra. B fala que eles viram a luz, mas A diz que eles não viram ninguém.  A, afirma que eles ouviram uma voz, mas B diz que eles não ouviram a voz daquele que falava com Saulo. Sugiro para harmonizar essas aparentes discrepâncias que provavelmente, que os homens tenham caído com Paulo, levantando-se também com ele. Quanto à visão e a voz, eles viram a luz, mas não viram a pessoa de Jesus (como Saulo), e eles ouviram o som, sem conseguir entender as palavras. Ou, como [19]Crisóstomo sugeriu muito tempo atrás, “Eles... ouviram a voz de Saulo, mas não viram a pessoa com que ele falava”.
            A segunda divergência diz respeito à comissão de Saulo e ao papel de Ananias. Apenas A conta toda a história de Ananias, como ele teve a visão de Jesus, como recebeu a ordem de procurar Saulo, como ele levantou objeções, como recebeu a garantia de que Saulo era o instrumento escolhido para levar o nome de Cristo aos gentios bem como aos judeus, e também para sofrer por esse mesmo nome, como ele foi até a Rua Direita, como ele impôs as mãos em Saulo e como o recebeu na comunhão. B omite toda conversação entre Jesus e Ananias, mas diz que Ananias foi até Saulo, devolveu-lhe a vista e transmitiu a ele a comissão de Cristo para ser uma testemunha diante de todos os homens. C, por outro lado, não faz nenhuma menção de Ananias, mas dá a impressão de que Cristo comissionou a Saulo na estrada, antes de entra em Damasco, enquanto que os termos da comissão são muito mais completos e parecem incluir não só as palavras de Ananias, mas também o que Jesus falou a Saulo mais tarde,, no templo, quando entrou em êxtase (22:17ss). Lucas (ou o próprio Saulo) evidentemente está fundindo o que Jesus falou nas três ocasiões: na estrada, com e através de Ananias e, mais tarde, em Jerusalém. Se, como parece estar claro, a sua intenção é juntar as várias partes da comissão de Cristo, e não especificar onde e quando cada parte foi dada, precisamos permitir-lhe essa liberdade e não acusá-lo de inexatidão.
            Finalmente é compreensível que Lucas desse um relato detalhado do papel de Ananias em sua própria narrativa, e que Saulo, dirigindo-se a judeus hostis no degrau da fortaleza de Antônia enfatizasse que Ananias era “piedoso conforme a lei; tendo bom testemunho de todos os judeus que ali moravam” (22:12). Mas diante de Agripa e Festo, Saulo omitiu completamente a história de Ananias. Em primeiro lugar, Ananias poderia ser desconhecido para eles. Depois, Saulo queria enfatizar a imediação  do seu encontro com Cristo. Cristo o comissionou de forma pessoal e direta, ele não foi desobediente à sua visão celestial.  

BIBLIOGRAFIA
Anderson de Oliveira Lima
Doutorando e Mestre em Ciências da Religião (Literatura e Religião no Mundo Bíblico) e Especialista em Bíblia (Tradição Profética) pela Universidade Metodista de São Paulo, Bacharel em Música (violão erudito). Escritor de artigos acadêmicos e reflexões sobre temas relacionados à literatura bíblica, os quais são publicados e divulgados pela internet e outros meios de comunicação. Defesa apocalíptica de Paulo.
CRISÓSTOMO, João. As homilias sobre os Atos dos Apóstolos pregadas em Constantinopla em 400 d.C.; de A Select Library of the Nicene and post-Nicene Fathers, Ed. Philips Schaff, vol. XI, 1951 (Eerdmans, reimpressão, 1975).
HAECHEN, Ernst. The Acts of the Apostles; A Commentary (1956; 14ª ediçao alemã, 1965; traduzido para o ingles, Brasil Blackwell, 1971).
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MARGUERAT, Daniel. A primeira história do cristianismo: os Atos dos Apóstolos. São Paulo, Loyola, Paulus, 2003. Pg. 13.
PINTO, Carlos Osvaldo, Apostila de Teologia Bíblica do Novo Testamento 1. Material não publicado. pp.??

RICHARD, Pablo. O Movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo, Paulinas, 2001. Pg.87
STOTT, John. A mensagem de Atos: Até os confins da terra. 2ª Ed. São Paulo, Abu Editora, 2008. Pg. 18.
Tradução Ecumênica da Bíblia, Loyola, São Paulo, 1994.
WATSON, D. F. Paulo e o Gloriar-se, pp. 57-79.



[1] Tradução Ecumênica da Bíblia, Loyola, São Paulo, 1994.
[2] RICHARD, Pablo. O Movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo, Paulinas, 2001. Pg.87
[3] RICHARD, Pablo. O Movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo, Paulinas, 2001. Pg.17

[4] PINTO, Carlos Osvaldo, Apostila de Teologia Bíblica do Novo Testamento 1. Material não publicado. pp.??

[5] STOTT, John. A mensagem de Atos: Até os confins da terra. 2ª Ed. São Paulo, Abu Editora, 2008. Pg. 18.
[6] MARGUERAT, Daniel. A primeira história do cristianismo: os Atos dos Apóstolos. São Paulo, Loyola, Paulus, 2003. Pg. 13.

[7] TEB (tradução ecumênica da bíblia) introdução a Atos.
[8] JOSEPH, A. Fitzmyer. Los hechos de los apostoles. Ediciones sígueme, salamanca, 1ª Ed. 2003.
[9] RICHARD, Pablo. O Movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo, Paulinas, 2001. Pg.90.

[10]STOTT, John. A mensagem de Atos: Até os confins da terra. 2ª Ed. São Paulo, Abu Editora, 2008. Pg. 188.
[11] RICHARD, Pablo. O Movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo, Paulinas, 2001. Pg.90.
[12] Anderson de Oliveira Lima
Doutorando e Mestre em Ciências da Religião (Literatura e Religião no Mundo Bíblico) e Especialista em Bíblia (Tradição Profética) pela Universidade Metodista de São Paulo, Bacharel em Música (violão erudito). Escritor de artigos acadêmicos e reflexões sobre temas relacionados à literatura bíblica, os quais são publicados e divulgados pela internet e outros meios de comunicação. Defesa apocalíptica de Paulo.

[13] Anderson de Oliveira Lima
Doutorando e Mestre em Ciências da Religião (Literatura e Religião no Mundo Bíblico) e Especialista em Bíblia (Tradição Profética) pela Universidade Metodista de São Paulo, Bacharel em Música (violão erudito). Escritor de artigos acadêmicos e reflexões sobre temas relacionados à literatura bíblica, os quais são publicados e divulgados pela internet e outros meios de comunicação. Defesa apocalíptica de Paulo.

[14]NOGUEIRA, P. A. de S. O que e Apocalipse. pp. 11-13.
[15] Anderson de Oliveira Lima
Doutorando e Mestre em Ciências da Religião (Literatura e Religião no Mundo Bíblico) e Especialista em Bíblia (Tradição Profética) pela Universidade Metodista de São Paulo, Bacharel em Música (violão erudito). Escritor de artigos acadêmicos e reflexões sobre temas relacionados à literatura bíblica, os quais são publicados e divulgados pela internet e outros meios de comunicação. Defesa apocalíptica de Paulo.
[16] WATSON, D. F. Paulo e o Gloriar-se, pp. 57-79.
[17] KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento, volume 2: História e Literatura do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulus, 2005
[18] HAECHEN, Ernst. The Acts of the Apostles; A Commentary (1956; 14ª ediçao alemã, 1965; traduzido para o ingles, Brasil Blackwell, 1971).
[19] CRISÓSTOMO, João. As homilias sobre os Atos dos Apóstolos pregadas em Constantinopla em 400 d.C.; de A Select Library of the Nicene and post-Nicene Fathers, Ed. Philips Schaff, vol. XI, 1951 (Eerdmans, reimpressão, 1975).